história

Gratidão por uma vida mais digna

23 de maio de 2019
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Por Eduardo Pires

Júlio César Matos da Silva é um jovem com 20 anos de idade que passou pelo sistema socioeducativo, exemplo de que é possível a ressocialização de crianças e adolescentes que cometem atos infracionais.

O caso dele difere um pouco da maioria das crianças e adolescentes que passam pelo sistema. Apesar de ter cumprido medidas socioeducativas em decorrência do seu envolvimento com o tráfico de drogas, Júlio não vivia em um ambiente familiar instável e em situação de vulnerabilidade econômica. Na família numerosa, ele e mais nove irmãos, os recursos financeiros não sobravam, mas o essencial não lhe faltava.

A entrada para o tráfico de drogas, influenciada e facilitada pelo envolvimento anterior de um irmão mais velho, veio então por um desejo adolescente de poder ostentar um tênis, uma roupa, um relógio, coisas que, infelizmente, seus pais eram incapazes de lhe fornecer, mas os lucros da venda de drogas sim. Dos 12 aos 15 anos, Júlio chegou a ser detido, foi enviado ao CIA, Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional, e sentenciado ao cumprimento de medidas socioeducativas em liberdade.

Quando começou a cumprir as medidas, Júlio conheceu a psicóloga Gorete*, que trabalhava no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do Morro das Pedras e ficou responsável pelo acompanhamento do seu caso e das medidas que cumpriria. A partir daí, a vida do Júlio tomou outro caminho e, com a ajuda da psicóloga, conseguiu um emprego na BHTrans.

Outra pessoa importante na trajetória de Júlio foi a psicóloga Aiezha Martins. Na época, Aiezha estava fazendo uma pesquisa de mestrado sobre os impactos psicossociais do cumprimento de medidas socioeducativas de prestação de serviços à comunidade e Júlio foi o principal jovem da pesquisa. Aiezha convidou Júlio a participar da Conferência Livre de Trabalho Infantil no Tráfico de Drogas e contar sua experiência para os jovens que estavam ali em situação parecida com a dele. Nesta conferência, conheceu a professora da UEMG, Alessandra Vieira, que enxergando o seu potencial, lhe ofereceu a oportunidade de ingressar no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da UEMG. Para ingressar no programa, ele voltou a estudar e, em breve, irá se formar no ensino médio. Júlio agora se prepara para buscar voos maiores e ingressar no ensino superior, que é um de seus desejos.

Com relação ao tempo em que passou no sistema socioeducativo, Júlio lembra que “nada acontece por acaso” e o processo que vivenciou no sistema fez com que conhecesse as pessoas que o ajudaram: “a palavra gratidão é o que penso em primeiro lugar, até porque sem elas, eu não estaria aqui (…) eu não consigo tirar o mérito delas, por acreditarem em mim, pela confiança que elas depositaram em mim.”

Do contato que tive com o Júlio, em uma manhã de um dia comum, em uma praça de Belo Horizonte, pude observar que sua trajetória foi e é construída pelo desejo de ser um individuo consciente e capaz de transformar sua realidade e, quem sabe, de muitos outros com caminhos, dificuldades e sonhos iguais aos dele. Junto a seu desejo, somou-se a contribuição das pessoas que se relacionaram com ele durante o cumprimento da sua medida socioeducativa e que resultou no jovem que é hoje.

A minha satisfação de ver a mudança do Júlio só é diminuída quando eu penso que, apesar dos esforços dos que lutam para viabilizar uma vida mais digna estamos, também, perdendo outros tantos “Julios” para a criminalidade, drogas e falta de perspectivas.

*Durante as entrevistas, Júlio não se lembrou do sobrenome de Gorete e a reportagem não conseguiu encontrar a psicóloga para mais informações. 

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